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Dicionário falso, definição da palavra bullying.

Como podemos ajudar os adolescentes a compreender o processo do bullying para que, juntamente com os pais, possam reagir e se opor a ele?

De acordo com o Cambridge Dictionary, bullying é: “O comportamento de uma pessoa que magoa ou assusta alguém mais pequeno ou menos poderoso, muitas vezes forçando essa pessoa a fazer algo que não quer fazer.”

Compreender o processo de bullying nos ajuda a responder com mais inteligência social, evitando a passividade e, ao mesmo tempo, reduzindo o estresse e os ambientes tóxicos, sejam eles causados direta ou indiretamente. Todos nós somos participantes e, portanto, responsáveis nessas situações.

Clémence Mary, escrevendo no Libération em 17 de março de 2023, destacou a tese de Margo Deage, que chama a atenção para a mecânica subjacente ao bullying.

Margo Deage descreve o bullying não apenas como usar alguém como um “escudo humano”, mas, mais precisamente, como transformá-lo em um para-raios; uma metáfora poderosa que ilustra como um indivíduo absorve a negatividade, a raiva ou o estresse coletivos dos outros.

O bullying é uma questão profundamente complexa. Ele cria um ciclo vicioso, uma atmosfera em que a tensão, o estresse e a toxicidade se espalham como um buraco negro ou um tornado, puxando todos para dentro. É extremamente difícil para uma única pessoa interromper esse processo, assim como é difícil deter os elementos: vento, fogo ou água. Muitas vezes, as pessoas não percebem o que está acontecendo até que os danos as afetem pessoalmente.

O verdadeiro perigo é que todos fiquem mental e fisicamente presos nesse “ambiente tóxico”.

Os professores de mindfulness nos lembram: quando você começar a ver sinais de incêndio, aja rapidamente, antes que ele se espalhe e fique fora de controle.

Sempre há uma maneira de intervir e interromper dinâmicas tóxicas. Reverter a toxicidade é um processo virtuoso, benéfico não apenas para alguns, mas para todos os envolvidos.

Artigo do jornal francês Libération:

Margot Déage: “No ensino médio, a reputação define a identidade e o valor de um adolescente.”

Como se forma uma reputação aos 13 anos? Por quais mecanismos alguém se torna um aluno popular ou um bode expiatório? A socióloga analisa a criação de boatos e más reputações, dos quais o bullying escolar pode ser a forma mais extrema.
(Mia Oberländer/Libération)
por Clémence Mary

No final de dezembro e início de janeiro, os suicídios de Ambre, de 11 anos, e Lucas, de 13, ambos vítimas de bullying escolar ou assédio homofóbico, trouxeram uma atenção renovada à incapacidade do público de conter esse flagelo. Embora tais atos sejam raros, entre 800 mil e 1 milhão de crianças são vítimas de bullying escolar a cada ano, de acordo com um relatório do Senado publicado em 2021. Para sua tese, publicada sob o título Na escola da má reputação (PUF, 2023), Margot Déage, socióloga da Universidade Jean-Jaurès de Toulouse, mergulhou nas relações entre alunos do ensino médio por meio de uma pesquisa de campo em quatro escolas de Paris e da região da Île-de-France. O ensino médio corresponde a uma fase da vida marcada por forte conformidade e controle social extremo, explica ela. Dentro da comunidade fechada da escola, os adolescentes julgam uns aos outros: “Dar opiniões constantemente sobre os outros alimenta as conversas”.

Em seu estudo, a socióloga revela um continuum de violência online e na escola, ao qual nem todos os jovens estão igualmente expostos: as meninas são mais frequentemente vítimas de agressões sexuais e online, enquanto os meninos sofrem mais frequentemente abusos físicos ou verbais. Ela lança luz sobre dinâmicas classistas, sexistas, racistas ou homofóbicas, amplificadas pelas redes sociais que promovem “más reputações” nesta fase crucial da formação da identidade social. Ela argumenta que uma melhor escuta por parte das instituições aumentaria a conscientização entre os jovens.

  • O ministro da Educação, Pap Ndiaye, anunciou planos para reforçar a luta contra o bullying. O que você acha dessas declarações?

Desde 2010, todos os governos sucessivos têm abordado a questão após incidentes altamente divulgados. Todos os anos, entre trinta e quarenta crianças com menos de 15 anos cometem suicídio, tornando-se a terceira principal causa de morte entre os 1 e os 24 anos, depois das doenças e dos acidentes [de acordo com dados do Inserm-CépiDc para 2017]. Mas estes atos são fenómenos muito complexos e apenas alguns são precipitados pelo bullying. Muitos anúncios permanecem simbólicos, apesar das parcerias eficazes entre a associação e-Enfance e as redes sociais. No entanto, essas ações não podem compensar a falta de pessoal disponível para apoiar as crianças em suas vidas sociais fora da escola.

  • “Quando o Estado não age, os jovens resolvem as suas questões entre si”, escreve. Por que é tão difícil resolver o problema?

Por trás do termo genérico “bullying escolar” escondem-se diversas questões. As agressões cibernéticas, o sexismo ou a violência sexual não são contabilizados nas estatísticas oficiais, que incluem agressões físicas, empurrões e violência relacional. A taxa de 5,6% de alunos do ensino médio que sofrem bullying grave, de acordo com a última pesquisa nacional [2017], está muito subestimada. Como não se utilizam as palavras certas, os problemas são mal compreendidos. Quando os meninos formam uma guarda de honra no recreio para tocar nas meninas que passam, à vista de todos, por que chamar isso de bullying? Eu vejo agressão sexual. Quando uma aluna relata que jogaram gasolina nela e a ameaçaram com um isqueiro, isso é tentativa de homicídio. Quantas formas de violência serão incluídas sob esse título? Como esses atos ocorrem entre crianças, presume-se que a escola deva lidar com eles. No entanto, existem qualificações criminais e judiciais para esses atos.

  • Por que esse fenômeno se cristaliza no ensino médio, enquanto 94% dos alunos afirmam se sentir bem nessa etapa?

Essa idade corresponde a uma fase muito conformista da vida. Os adolescentes não têm nenhum status além do cotidiano escolar: não têm emprego, diploma, cônjuge, filhos. Eles julgam uns aos outros pelo que fazem, como se vestem, o que dizem. A reputação define a identidade e o valor de uma pessoa. Os jovens buscam se tornar eles mesmos, emancipando-se das imposições dos pais por meio de uma cultura juvenil em oposição aos adultos. O ensino médio é uma comunidade fechada com forte co-presença; opiniões sobre os outros são expressas constantemente. No momento em que alguém sai da norma, um controle social violento é exercido, do qual o bullying é a forma mais extrema.

  • Por meio de quais mecanismos a reputação é construída no ensino médio?

A maioria dos adolescentes procura não se destacar, pois a reputação na escola costuma ser negativa. Ela pode se formar inconscientemente por meio de risadas, apelidos, brincadeiras ou estrategicamente por meio de divulgação ou difamação. Decepcionados com a amizade ou o amor, alguns jovens decidem “construir uma reputação” para os outros, revelando um ou mais “arquivos” como vingança. Os bodes expiatórios garantem o valor moral do resto do grupo, agindo como pára-raios atrás dos quais os outros podem viver discretamente suas vidas e experimentar transgressões “menos graves” aos seus olhos.

  • Por que a fronteira entre riso e zombaria é tão tênue?

Para que o riso se instale, o grupo deve ser insensível ao aluno que é objeto da hilaridade. Essa insensibilidade é forte no ensino médio, onde a empatia não é bem-vinda. O escárnio prevalece, assim como o desejo de mostrar que se está lá para se divertir. Quem não se conforma é excluído. Em público, os alunos dizem que estão bem, mas em particular muitos admitem que não conseguem ser eles mesmos ou expressar emoções como a tristeza. Um aluno pode sentir que sua má reputação é merecida, agir de forma agressiva diante do grupo, mas, em particular, lamentar seu comportamento e confessar que desempenha um papel por medo da rejeição. O apoio individual pode ser uma alavanca para os profissionais da educação.

  • Os mecanismos de reputação são os mesmos para meninos e meninas?

Em suma, o sexismo é aprendido no ensino médio. Os meninos adquirem má reputação por meio de atos que quebram normas e são considerados desviantes, mas que lhes rendem respeito. Aqueles que não têm medo dos professores ganham uma aura especial. Esses alunos são punidos mais severamente pela instituição, o que, por sua vez, aumenta seu status entre os colegas. Alguns alunos de origens desfavorecidas que se sentem academicamente inadequados, e outros em solidariedade, voltam contra os “intelectuais” a violência simbólica e o desprezo de classe que sentem, muitas vezes provenientes das classes altas e percebidos como próximos da autoridade.

Para as meninas, é o contrário: espera-se que sejam conformistas, virtuosas, discretas e que se mantenham afastadas dos meninos. Elas vivem sob a ameaça constante de serem rotuladas como “vagabundas”. Uma menina rebelde está sujeita a zombarias, agressões e rejeição, enquanto um menino com má reputação escapa aos comentários. Na puberdade, o desenvolvimento corporal das meninas torna-as suspeitas assim que conversam com meninos. A puberdade e a descoberta da identidade de gênero ou orientação sexual podem ser brutais. Códigos de vestimenta, às vezes reforçados por instituições ou práticas religiosas, impõem controle. Esse duplo padrão sexista também afeta meninos “afeminados”, que são dóceis até encontrarem uma maneira de “ganhar respeito”.

  • Que outros fatores aumentam o risco de rejeição?

As origens étnicas exacerbam esse risco. Durante minha pesquisa, o estigma da “beurette” era forte. Se você se encaixa nesses critérios raciais ou é arbitrariamente atribuído a eles, você se torna suspeito. Se uma garota vai a um café shisha, associado na imaginação ao Oriente Médio e à cultura das drogas, ela é rotulada com essa figura negativa ou com a de “niafou”, o equivalente para a África Ocidental. Os “bodes expiatórios”, que carregam a pior reputação, muitas vezes vêm de origens sociais muito desfavorecidas. Seu isolamento pode levá-los a outros círculos, às vezes levando à delinquência ou à prostituição.

  • Qual é o papel das redes sociais nesta vida social?

Eles amplificam o que acontece dentro das paredes da escola. O controle social no ensino médio tende a restringir as relações interpessoais, que então se retraem e se manifestam nas redes sociais. Nesse ecossistema, que permite escapar do controle dos adultos, o Snapchat serve para conversas por meio de mensagens efêmeras e relativamente fechadas. Mas essa confidencialidade é facilmente contornada: os jovens sabem como capturar conteúdo, como “nudes” ou conversas privadas.

  • Existe uma tendência para pensar separadamente sobre a agressão na vida real e a agressão online?

Sim. O que acontece online é real. Ambos têm origem na mesma violência de perto, já que os amigos online tendem a ser os mesmos da escola. No entanto, os valores às vezes se invertem: o que atrai atenção online é muitas vezes tabu ou suspeito offline, como conteúdo sexualizado. Estratégias para “trapaçar” e ganhar curtidas e seguidores são mal vistas, porque a autenticidade é muito valorizada. “Hipócrita” é um dos piores insultos. Manipulação e fingimento se opõem à amizade leal. Nos subúrbios, os jovens usam o “ciberespaço” para desacreditar aqueles que trapaceiam para aumentar sua reputação eletrônica “inventando uma vida”.

  • Como os adolescentes lidam com os riscos dessa vida digital?

Essa economia da atenção confere à reputação um valor de mercado por meio de ferramentas contábeis. Mas “curtir” um comentário odioso envolve pouco comprometimento, e o efeito espiral promove o bullying em grupo. Embora as telas incentivem a desinibição, os adolescentes continuam modestos e cautelosos: aqueles que compartilham publicamente, fazem lives ou stories são uma pequena minoria, cerca de 15%, e no Instagram, as postagens são rapidamente arquivadas. Os alunos do ensino médio preferem trocas privadas, tornando o cyberbullying mais difícil de rastrear. Compartilhar senhas é um sinal de amor ou amizade, mas também deixa a pessoa vulnerável ao roubo de identidade.

  • A lei que estabelece a maioridade digital aos 15 anos, aprovada pela Assembleia em 2 de março, pode mudar as coisas?

A divulgação de mensagens de prevenção nas redes e a ampliação da lista de conteúdos passíveis de denúncia ajudarão a pacificar as conversas online. Mas a verificação da idade e a obtenção do consentimento do responsável legal apresentam desafios técnicos e éticos. Isso exige abandonar o pseudonimato e identificar-se, potencialmente conectando-se à interface oficial France Connect. Que informações as plataformas armazenarão para esse fim? O que o Estado retirará de nossas vidas digitais? Tentar regulamentar os adolescentes é paradoxal, pois suas habilidades técnicas e consciência dos riscos muitas vezes superam as dos adultos. Essa medida transfere a responsabilidade pelas redes sociais para os pais. Os adolescentes provavelmente encontrarão maneiras de contornar a regulamentação, usando VPNs, por exemplo. Com menos liberdade do que seus pais tinham, eles precisam desse espaço para criar vínculos de forma autônoma.

(Artigo atualizado traduzido do francês com Chat Gpt em 25/08/09) também disponível no (Link)

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